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sábado, 13 de setembro de 2014

A VITÓRIA - Célia Laborne Tavares



 

 

            Andou depressa, quase correu, chegou cedo sem saber para que.

            Olhou desconfiado a sala de aula. Sala vazia, cresce, dá medo. Carteiras sem meninos são frias, agressivas.

            Entrou tímido. Não era o primeiro da classe, não era capitão de time, nem o mais levado ou o pior nos estudos.

            Olhou desajeitado. Menino oitavo lugar, menino reserva de time, moreno claro, sete e meio de comportamento.

            O quadro negro fazia assombração na parede nova.

            A professora trouxe a fila de crianças alegres e as arrumou nas carteiras, como uma caixa de bombons.

            Professora bonita – bombom de licor – menino queria agradar, menino desapontado não agrada. Queria tirar zero, mas tinha estudado a lição. Queria ganhar dez, mas tropeçou no vestido novo da professora e não disse o fim da análise lógica. Encabulou-se, riram dele.

            Menino queria ir embora, mas a casa não era mais bonita do que a escola. Queria ficar de castigo, mas estava quieto ouvindo e olhando a professora. Queria medalha, mas a nota não dava.

            Os anos correram logo. Menino não levou bomba, não foi o primeiro da classe, não teve medalha nenhuma.

            Menino estudou muito. Ganhou diploma: Matemática, Português, desaponto, Química, solidão, Latim, tristeza.

            Quando crescesse mais, certamente seria diferente.

            A infância deu um pulo. Encurtou rapidamente, achou o homem menino ainda e tudo que devia ser fácil ficou mais complicado, mais 8º lugar, mais reserva de time.

            O menino então lembrou de gritar, espernear, procurar as coisas de qualquer jeito. Leu, indagou, pediu, fez papel feio, tomou vitamina, viajou, pensou difícil. Uma  porção de ideias nasceram desencaminhadas, procurando estradas que não  eram, dias que não estavam na folhinha, vozes que o vento levara.

            Menino grande correu, cansou, chorou, deitou-se para morrer; a morte não o quis. De repente, uma ideia pequenina – cara de reserva – o chamou de novo. Menino grande levantou-se, viu um trilho estreito – coisa a toa – menino crescido indeciso, medroso, querendo ser forte, corajoso, querendo tudo. Escorregou, foi devagar, tropeçou, achou ruim, insistiu ainda. Caminho difícil, mas quis seguir sem saber para onde. Andou tanto que começou a ter o passo firme, desenvolto. Aprendeu a respirar, achou graça nas árvores, nos pássaros, descobriu caminhos novos, assobiou alto.

            Sem saber como, menino foi aprendendo a ver, a ouvir, a viver.  Menino  agora, não era feio, não era bonito, era vitorioso. Olhou-se no espelho, menino sumira, descobrira meia verdade. Fez uma festa, contou a todos, riu alto, rezou escondido.

            Era bonito vê-lo assim, olhos transparentes, contando coisas recém encontradas, como se todo o mundo estivesse recomeçando com ele. Tinha rosto sereno, mãos de espera. A vida era dele, sem desaponto, sem reserva, sem medalha alguma. Só vitória.

3 comentários:

Beatriz Bragança disse...

Querida Irene
Este texto é uma «pérola»!
Às vezes é tudo tão simples,mas não nos apercebemos logo!
Gostei imenso,pois transmite muita esperança.
Um beijinho
Beatriz

✿ chica disse...

Que linda história de vida desse menino e um final feliz! bjs,chica

MARILENE disse...

Creio que todos os vitoriosos carregam suas cicatrizes. Mas podem sorrir com tranquilidade. Bjs.