Seguidores

terça-feira, 28 de outubro de 2014

DIÀLOGO - Célia Laborne Tavares


 


O doce, porém firme convite do não-dizer pode salvar o momento. O encontrar-se no silêncio ou nas palavras diferentes que fingem mudar o curso do pensamento mais forte, mais atuante, conduzem à fronteira certa. O diálogo que amanhece e alonga-se, encobrindo o não-dizer mais íntimo e secreto para a difícil escolha, é necessário.

A realidade que vive sem palavras procurando o silêncio ou o esquecimento. No último dia deve ter sido assim, pelo que me disseram: um único diálogo simples e lento, vivo e quieto, vago, um desconversar quase sem sentido, como se estivessem dissolvendo-se. Depois um até-logo breve, inconsequente, para encerrar o anti-diálogo. Não houve pressa para ganhar o silêncio.

Entretanto, tudo estava estranhamente iluminado de azul, de fim de sol, de ar novo, como se não fosse acabar; como se as árvores perguntassem e o céu respondesse o que não foi falado; como se as ruas entendessem e o cenário fosse para as pessoas em júbilo, libertas. E era o fim.

Pelo não-dizer a importância crescia mais, resolvida ao útil sacrifício do silêncio que deixou limpo o sol, serena a tarde, tranquilos os corações. Depois... a rotina dos passos mansos.

O não-dizer heróico cumpriu sua missão. A luta que se impôs manteve a dignidade, talvez a Paz, por certo a quietude que pode imitar a morte ou, quem sabe, a espera de um novo século.

No silêncio a palavra vai ficar muito antiga, porém, muito viva, quase absoluta, na sua forma, no seu canto mudo. Tudo então poderá renascer, algum dia, em alguma parte.


Sem comentários: